Depois de anos de estudo na Academia da Força Aérea, centenas de horas de voo e da conquista de uma das profissões mais disputadas do Brasil, pilotos continuam deixando a FAB em uma decisão que poucos imaginariam tomar.
Mas o que leva um aviador militar, justamente depois de alcançar essa qualificação, a pedir desligamento da Força Aérea Brasileira?
A pergunta voltou ao debate após a Revista Sociedade Militar divulgar novos levantamentos sobre a saída de oficiais e sargentos das Forças Armadas. Ao mesmo tempo, um estudo baseado em dados do IBGE mostra que a carreira militar perdeu espaço entre as profissões mais bem remuneradas do país.
O cenário ajuda a entender por que pilotos experientes passam a considerar oportunidades fora da caserna.

Carreira militar perdeu 16 posições no ranking de remuneração
O levantamento foi publicado inicialmente pela Folha de S.Paulo com base em dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua), do IBGE. A análise foi realizada pelo economista Bruno Imaizumi, da consultoria 4intelligence, e avaliou 425 ocupações do mercado de trabalho brasileiro.
Segundo o estudo, os oficiais das Forças Armadas caíram da 14ª para a 30ª colocação entre as profissões com maior remuneração média. A queda de 16 posições ocorreu em apenas três anos.
Atualmente, a renda média da carreira é de R$ 12.779 mensais. Nesse período, várias profissões passaram à frente dos militares, entre elas a de piloto de aviação comercial.
Aviação civil amplia disputa por profissionais
O crescimento do transporte aéreo, a expansão da aviação executiva e a retomada das contratações aumentaram a procura por pilotos experientes.
Nesse cenário, profissionais formados pela FAB despertam interesse do mercado. Eles acumulam treinamento operacional, disciplina, horas de voo e experiência em diferentes missões.
A Revista Sociedade Militar informou que 21 oficiais aviadores deixaram a FAB apenas no primeiro trimestre de 2026. O número reforça um movimento observado nos últimos anos.
Além dos salários oferecidos pelas empresas, algumas companhias passaram a utilizar bônus para atrair profissionais. Em dezembro de 2025, por exemplo, a LATAM ofereceu R$ 80 mil como bônus de admissão para pilotos contratados.
Diferença salarial também aparece dentro da carreira militar
A remuneração também entrou no debate sobre a retenção de profissionais na FAB. A discussão ganhou força diante da diferença entre os vencimentos dos aviadores e os valores recebidos no topo da carreira.
Em janeiro de 2026, o soldo de um primeiro-tenente da Aeronáutica passou para R$ 9.004. Já o soldo de um capitão chegou a R$ 9.976.
Esses valores servem como base para o cálculo da remuneração. Além disso, podem receber adicionais previstos na legislação.
No outro extremo, a Revista Sociedade Militar informou que o comandante da Aeronáutica passou a receber remuneração bruta mensal de R$ 65.658,12.
Segundo a publicação, o valor reúne a remuneração militar e a parcela referente ao cargo comissionado exercido no Ministério da Defesa.
Portanto, os R$ 65.658,12 não representam apenas o soldo. O valor também não pode ser atribuído aos demais integrantes do Alto Comando.
Ainda assim, a comparação mostra uma diferença expressiva. De um lado estão oficiais aviadores em postos intermediários. Do outro, aparecem os valores alcançados no topo da carreira.

Diário Oficial registra novas baixas na FAB
Os dados mais recentes mostram que o movimento não terminou no primeiro trimestre. Entre 1º de junho e 22 de julho de 2026, a FAB publicou no Diário Oficial da União, mais quatorze demissões de oficiais.
Todas ocorreram a pedido dos próprios militares. Entre os desligados estavam aviadores, engenheiros e profissionais de outras áreas estratégicas.
Seis pertenciam ao Quadro de Oficiais Aviadores. Deixaram a Força um tenente-coronel, três capitães e dois primeiros-tenentes.
Um dos casos envolve um tenente-coronel que comandava a unidade onde servia. Ele estava no penúltimo posto antes do generalato. O caso mostra que os desligamentos não se limitam aos oficiais recém-formados.
Dois primeiros-tenentes foram enquadrados no artigo 116, inciso II, do Estatuto dos Militares. A regra alcança oficiais com menos de três anos de oficialato e prevê indenização pelos gastos com a formação.
O levantamento também identificou a saída de quatro oficiais engenheiros. Dessa forma, a perda atinge não apenas as unidades de voo, mas também áreas ligadas à infraestrutura, pesquisa, manutenção e desenvolvimento tecnológico.
Somados aos 21 oficiais aviadores que deixaram a FAB no primeiro trimestre, ao menos 27 aviadores tiveram o desligamento noticiado nos períodos analisados pela publicação.
Formação leva anos e exige alto investimento
A formação de um piloto militar não termina na Academia da Força Aérea.
Depois da graduação, o oficial passa por adaptações operacionais, especializações e treinamentos em diferentes aeronaves. Somente depois dessas etapas ele alcança plena capacidade para cumprir missões.
Por isso, a reposição de um aviador experiente não acontece rapidamente. O processo exige novos candidatos, instrutores, combustível, manutenção e muitas horas de voo.
Decisão não envolve apenas o salário
Embora a remuneração esteja no centro do debate, a saída da carreira militar pode envolver outros fatores.
Entre eles estão qualidade de vida, transferências frequentes, perspectivas profissionais e aprovação em outros concursos públicos. Além disso, a aviação civil oferece novas possibilidades para pilotos com experiência operacional.
A FAB continua realizando concursos para formar oficiais e sargentos. Entretanto, a entrada de novos militares não resolve imediatamente a perda de profissionais qualificados.
Enquanto a Força Aérea investe na preparação de novos aviadores, o mercado civil amplia a disputa por pilotos e sargentos e suboficiais especialistas. Por isso, a retenção desses profissionais permanece como um desafio estratégico para a aviação militar brasileira.
Fonte: Aerojota
