O que a aviação regional pode aprender com as concessões de aeroportos

Experiências como a do Galeão mostram que concessões bem estruturadas, investimentos e PPPs podem impulsionar o desenvolvimento do interior.

É possível identificar rotas viáveis e formar parcerias para que os aeroportos regionais se desenvolvam

A aviação regional brasileira enfrenta um desafio que vai muito além de manter pistas e terminais em funcionamento: transformar aeroportos em instrumentos de desenvolvimento econômico. Para isso, é preciso garantir infraestrutura adequada, atrair companhias aéreas, ampliar a oferta de voos e criar condições para que as operações sejam sustentáveis. Nesse cenário, as experiências de concessão de aeroportos à iniciativa privada oferecem lições importantes.

O caso do Aeroporto do Galeão, no Rio de Janeiro, é um exemplo. A reorganização da concessão, mesmo depois da desistência da operadora original, demonstra que o modelo pode ser ajustado diante de dificuldades. A realização de um novo leilão também evidencia a possibilidade de atrair operadores interessados em assumir a gestão e investir na recuperação de ativos aeroportuários. A experiência reforça a ideia de que a concessão não precisa ser um contrato incapaz de responder às mudanças de cenário. Com regras adequadas, fiscalização e mecanismos de revisão, é possível corrigir rumos e buscar soluções para preservar a operação e melhorar os serviços.

Mas o que funciona em um grande aeroporto internacional não pode ser simplesmente reproduzido em cidades do interior. A aviação regional tem características próprias, sobretudo a demanda potencial, a distância dos grandes centros, os custos operacionais e a capacidade de atrair passageiros durante todo o ano.

O primeiro passo é o planejamento. É fundamental identificar quais rotas podem ser economicamente viáveis e quais dependem de incentivos temporários para se consolidar. Outro aprendizado está na divisão de responsabilidades. O poder público pode estabelecer metas, fiscalizar os contratos e articular políticas de desenvolvimento, enquanto operadores privados assumem a gestão e os investimentos previstos. Em aeroportos de menor porte, entretanto, a iniciativa privada pode não encontrar retorno suficiente apenas com as receitas da operação. Nesses casos, parcerias público-privadas, concessões com contrapartidas proporcionais e mecanismos transparentes de incentivo podem ser alternativas viáveis.

A infraestrutura, isoladamente, também não garante a retomada dos voos. É preciso trabalhar para atrair companhias aéreas, negociar frequências, identificar os principais destinos demandados pela população e aproximar empresas, universidades, hospitais, operadores de turismo e governos. A conectividade aérea deve responder às necessidades concretas de cada região.

Esse aspecto é particularmente importante para cidades do interior do estado do Rio de Janeiro. Um aeroporto regional bem estruturado pode facilitar deslocamentos de empresários, trabalhadores, pesquisadores e pacientes, além de contribuir para o turismo e a atração de investimentos. No Norte Fluminense, região fortemente atrelada à indústria do petróleo e portuária, à logística, à produção agropecuária e aos serviços, a disponibilidade de voos pode representar uma vantagem competitiva.

O Aeroporto Bartolomeu Lisandro, em Campos dos Goytacazes, ilustra a relevância dessa discussão. A retomada das ligações comerciais exige mais do que uma pista disponível e um terminal em condições de funcionamento. Depende de articulação entre o município, a concessionária, as companhias aéreas e o setor produtivo, além de uma estratégia capaz de demonstrar a demanda regional e a viabilidade das operações. É preciso pegar a estrada para reuniões, levando dados sobre o potencial de passageiros, os destinos prioritários, a movimentação empresarial e as conexões com outros polos econômicos. Com essas informações, é possível apresentar propostas concretas às companhias aéreas e aos operadores aeroportuários.

A aviação regional precisa ser tratada como parte da infraestrutura estratégica do país. Se as experiências bem-sucedidas de concessões ensinam algo, é que planejamento, capacidade de investimento, flexibilidade contratual e cooperação entre os setores público e privado podem transformar aeroportos em ativos de desenvolvimento.

O desafio é adaptar essas lições à realidade de cada território. Mais do que administrar aeroportos, é necessário construir conexões que aproximem pessoas, mercados e oportunidades. É assim que a aviação regional poderá deixar de ser uma promessa recorrente e se tornar um componente efetivo do desenvolvimento do interior brasileiro.

Fonte: O dia